quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O Cigano Peregrino - 21


Primeiro observei um homem vestido de branco, pelo tipo parecia ser médico. Estava alquebrado, sentado num banco, abatido, com a testa franzida, triste. Havia uma insatisfação estampada em todo o seu ser. Aproximei-me dele:
- Bom dia!
- Bom dia! – Murmurou.
- Posso me sentar aqui?
Ele olhou outros bancos na praça:
- Mas há tantos bancos vazios...
- Se eu me sentar com você vou incomodá-lo?
- Talvez até não... Estou precisando desabafar.
- Está mal?
- Péssimo.
- Por quê?
- Falta de tesão. Fiz o curso de medicina não por vocação, mas por influência dos meus pais e amigos. Queria mesmo era ser ator, mas meteram na minha cabeça que não daria dinheiro, não daria certo... Escolhi medicina, fiz o curso, me sacrifiquei, me formei, já tenho sete anos exercendo a profissão, ganho razoavelmente bem, mas não sou feliz na profissão.
- Mude – falei – você vai passar o resto da vida frustrado só porque conseguiu alguma estabilidade?
- Você não percebe o quanto é difícil! Sinto-me escravo do sistema. Seria loucura eu deixar tudo nesse momento e seguir um sonho de juventude. A vida adulta não reserva espaço para sonhos, mas sim para a sobrevivência.
- Que crença absurda! – Fiquei indignado – agora que você está capitalizado pode bancar seu curso de Artes Cênicas e se realizar. Pode ir fazendo a transição aos poucos e se proporcionar ainda uma continuidade de vida feliz.
- É fácil falar quando se está de fora!
- Fui padre no Brasil. Larguei tudo e hoje sou andarilho.
- Isso é louvável, mas eu não tenho coragem. Não tenho outra alternativa senão continuar vivendo dessa forma.
- Lamento!
- Eu também.
O homem se levantou e partiu. Enquanto ele se afastava, eu o contemplava: andar pesado, corpo triste, vida sem graça. Tive uma imensa compaixão por aquele ser, porém isso não mudava os fatos se dentro dele havia nenhuma disposição de se fazer feliz.
Alguns instantes depois chegou um homem vendendo lanche. Era moreno, belo e tinha um olhar cheio de vida. Ofereceu-me seu produto e eu lhe perguntei:
- O que tem aí, amigo?
- Pão de queijo.
- Quero um.
- Lindo dia!
- Com certeza.
Ele me deu o alimento cheiroso e fofinho. Fiquei com água na boca. Paguei, ele me agradeceu sorrindo e eu tirei um pedaço do pão... Delicioso!
- Hum!
- Gostou? Eu mesmo que faço.
- Excelente!
- Há quanto tempo vende lanche, amigo?
- Creio que há... Oito anos.
- Gosta do que faz?
- Gosto demais.
- Não pensa em outra coisa?
- Como assim?
- Algo melhor, que lhe dê mais dinheiro, mais segurança? – Eu o estava testando.
- Não. Sou feliz com o que faço. Eu imprimo meu ritmo na minha produção e venda. Além disso, forneço para algumas escolas. Com o que ganho, pago minhas coisas e ainda tenho tempo para curtir a vida. Que mais posso querer?
- Como se chama?
- Alejo e você?
- Gilberto.
- É um prazer conhece-lo, Gilberto
- O prazer também é meu, Alejo.
- E lembre-se: qualquer coisa que façamos que nos dê realmente prazer, em todos os sentidos, é a coisa certa a ser feita. O ser humano pleno é antes de tudo louco e corajoso, pois deve ter o desprendimento e o bom-senso de quando perceber que algo que faz o aborrece tremendamente, deve deixar o que incomoda e se experimentar no que será motivo de gozo. O tédio e a fascinação não nossos grandes mestres. O tédio continuo sinaliza que é tempo de mudar e o que nos fascina, que é tempo de permanecer onde está. A vida é muito curta para que percamos tempo sofrendo. E observo que há muita gente besta que emprega toda energia no sofrer... Já pensou se essa mesma gente empregasse esse mesmo quantum em gozar?
Olhamo-nos por uns instantes. Eu estava maravilhado diante daquele homem, daquele deus. Abraçamo-nos e ele se foi, deixando em mim uma das lições mais importantes que aprendi em toda minha vida. 

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